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I COLÓQUIO NACIONAL DE LITERATURA INFANTIL/JUVENIL NA GRADUAÇÃO: PAISAGENS E HORIZONTES - CARTA DOS PARTICIPANTES À COMUNIDADE ACADÊMICA E CIVIL

Foto do escritor: Instituto TAL
Instituto TAL
2 de set.
5 min de leitura

Esta carta nasce como fruto de um debate entre especialistas envolvidos com o desenvolvimento da competência leitora e com a formação de leitores de literatura – especialmente crianças e jovens – no I Colóquio Nacional da Literatura Infantil e Juvenil na Graduação: paisagens e horizontes (I CONLIJ), realizado entre 26 e 28 de maio de 2026. Sediado na UERJ, na UFF e na Unesp, e organizado por professores pesquisadores das três instituições, da UFRJ e do CP II, o evento agregou, em Grupos de Trabalho (GTs), profissionais de Letras, Biblioteconomia, Pedagogia, Produção Editorial, Artes e História. O Colóquio teve o propósito de mensurar o alcance da Literatura Infantil e Juvenil (LIJ) nas graduações de todo o Brasil, e discutir a obrigatoriedade da inserção de disciplinas voltadas para a formação de professores e mediadores de leitura literária e de agentes ligados à cadeia de produção do livro para crianças e jovens. O Colóquio reuniu, em conferências e mesas, pessoas de notável relevo em torno das questões norteadoras do evento, como se comprova no Caderno de Programação e Resumos. Você pode acessar o documento completo aqui:


Nesse sentido, o grupo organizador do Colóquio buscou recuperar a memória de outras iniciativas que indicassem encaminhamentos semelhantes na busca de recuperação do espaço da literatura nos processos formativos. Em 2022, a Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) convidou um grupo de pesquisadores de diferentes estados e instituições brasileiras para discutir a situação do ensino da literatura no Brasil e elaborar propostas com vistas a ampliar sua presença na educação básica e superior. O objetivo da chamada era a construção de um documento – uma Carta – que desencadeasse um debate no âmbito da própria associação para, posteriormente, fazer reverberar a discussão em outros espaços institucionais, como a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Letras e Linguística (ANPOLL), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e os programas de pós-graduação do país. Dentre as pautas propostas, em consonância com esta Carta, há a “Ampla campanha pela garantia de disciplinas obrigatórias de Literatura Infantil e Juvenil ou Literatura Infantojuvenil [...] em todas as propostas curriculares e cursos de licenciatura em Pedagogia e de Letras e de bacharelado em Biblioteconomia”2. O foco das discussões fomentadas pelo Colóquio recaiu, em primeiro plano, na presença de disciplinas obrigatórias ou eletivas/optativas nas grades curriculares de instituições de ensino superior, dedicadas à formação do leitor crítico e humanizador, permitindo observar se o futuro docente, ou bibliotecário, escritor, ilustrador, designer etc., em sua graduação, obteve ferramentas teóricas e práticas para produzir ou mediar obras de literatura infantil e juvenil, assegurando, neste processo, a fruição estética e a emancipação do leitor, conforme sugerido pela literatura da área. Em segundo plano, o foco incidiu sobre a qualidade e a profundidade da formação literária oferecida, buscando entender se as grades curriculares apresentam componentes propícios para a preparação adequada do mediador de leitura ou das demais possíveis formações em que a LIJ se faz presente, explorando o potencial da literatura para o desenvolvimento integral de crianças e jovens, no âmbito da linguagem, da formação cultural ou da formação estética e ética. A relevância dessa análise reside, especialmente, na intrínseca relação entre formação inicial de professor, ou do bibliotecário, do escritor, do ilustrador, do designer, e na qualidade da experiência literária que este profissional ofertará aos alunos, em sala de aula, ou aos leitores, por meio da produção de obras esteticamente bem elaboradas, passíveis de serem lidas também por adultos. Destaca-se, nesse viés, a relevância da LIJ na formação competente do sujeito leitor desde a mais tenra infância. O texto literário, por pressuposto, possibilita vários níveis de leitura, abdicando de uma visão única, na maioria das vezes arbitrária, antes convidando ao diálogo de vozes em torno dos sentidos que palavras e imagens suscitam. As competências cognitivas e empáticas que a leitura literária pode promover estão diretamente relacionadas à formação de um cidadão com capacidade de perceber, conscientemente, a si e ao outro em sua diversidade, alargando a visão ao mundo e a todas as formas de vida do planeta. Urge o investimento político-pedagógico nessa formação para todo o povo brasileiro, como um direito democrático inalienável. A partir do diagnóstico apresentado pelos pesquisadores3, constatou-se ou a ausência da disciplina de LIJ na grade curricular de muitos cursos de Letras, Pedagogia e Biblioteconomia e outros cursos afins, ou a oferta bastante tímida, muitas vezes tendo o conteúdo relacionado à LIJ diluído em outras disciplinas. Observa-se também a insuficiência ou a inexistência de acervo bibliográfico especializado e de outros recursos materiais nas universidades. Além disso, é patente a carência de professores com formação específica nos cursos, em um círculo vicioso que precisa ser rompido: a falta e/ou a escassez do oferecimento da disciplina de LIJ na graduação – inclusive em Letras, Língua Portuguesa e suas literaturas – e em estudos posteriores de pós-graduação impactam a formação de docentes e profissionais relacionados à produção e à circulação literária em LIJ, situação agravada pela ausência de concursos específicos na maioria das universidades públicas, o que também compromete a existência de professores dedicando-se a esses estudos nos cursos de Letras e demais áreas afins. Esses fatos comprometem a formação do graduando em competências cruciais como: letramento literário; desenvolvimento de repertório estético; habilidades de mediação de leitura; contato com particularidades do campo (como narrativas visuais e ilustração, oralidade, contação de histórias, projeto editorial, políticas públicas de leitura etc.); aprofundamento nos fundamentos teóricos, na história e na análise crítica do texto literário de potencial recepção infantil e juvenil. Além disso, limita a articulação mais sistemática entre literatura, práticas de mediação de leitura, estágio supervisionado, formação de comunidades leitoras e mercado editorial, aspectos especialmente relevantes diante da centralidade da leitura literária na formação humana e escolar contemporânea e da circulação de obras de LIJ em diferentes espaços da sociedade. Em tempos de reforma curricular das licenciaturas, cujas diretrizes são instituídas pela Resolução CNE nº4/2024, cumpre salientar o impacto da lacuna do conhecimento e da experiência em LIJ na formação inicial superior de profissionais do magistério, com tímida evolução dos dados sobre a leitura no Brasil em paralelo à carência de formação adequada para atuar com mediação leitora na escola. Importante também citar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que defende práticas de leitura literária que possibilitem o desenvolvimento do senso estético para fruição, valorizando a literatura e outras manifestações artístico-culturais por seu potencial transformador e humanizador. Preconiza-se, pois, o aumento progressivo da demanda cognitiva e empática das atividades de leitura literária, que deve abranger produções e formas de expressão diversas de LIJ, a fim de garantir ampliação do repertório leitor e a interação e o trato com aquilo que é diferente. Destacam-se ainda documentos oficiais, cujas recomendações acham-se contempladas na produção e nas pesquisas em LIJ, como a Política Nacional de Equidade, a Educação para as Relações Étnico-raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). Diante de um cenário de isolamento institucional, distanciamento prático, concentração teórica em eixos regionais específicos e vinculação de ações em torno dessa literatura a iniciativas docentes pessoais, o grupo propõe, em consenso, que a disciplina se torne obrigatória e integrada à formação antes dos estágios, superando o viés puramente historiográfico para priorizar mediações metodológicas e a ampliação do repertório estético dos futuros docentes e profissionais de áreas em que a LIJ circula, que devem se constituir como leitores ativos para melhor atuarem em suas profissões. Reiteramos que é fundamental que essa disciplina integre a grade curricular dos cursos como obrigatória, com concurso para provimento de vaga quando da vacância do cargo, além de estar inserida em estruturas institucionais que garantam sua existência em bacharelados e licenciaturas de diversas áreas cujos egressos necessitam de formação em Literatura Infantil e Juvenil. O Colóquio, portanto, configurou-se como parte de um movimento político que quer contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais sensível e empática, que garanta educação de qualidade a crianças e a jovens. Para isso, precisamos da ajuda daqueles que podem nos representar no legislativo a favor dessas conquistas.

 
 
 

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